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Saúde: A adolescência e a passagem da infância para a vida adulta

A travessia do adolescer, discutida pela psicóloga Dr.ª Juliana Cavalcante, dentro da coluna editorial do também psicanalista Dr. Orleando Lira.

A travessia do adolescer se refere a passagem da infância para a vida adulta, momento este denominado adolescência que envolve uma série de transformações em que o adolescente é convocado à desligar-se da infância e à preparar-se para a vida adulta. É um processo doloroso e conflituoso de renúncia dos objetos de amor, um luto pelas perdas do momento da infância, que evidencia para o sujeito que para crescer é preciso tolerar essas perdas, se diferenciar dos pais, e se construir. 

Um momento de sofrimento e transformações tambémpara os pais, que sentem uma transição em marcha, uma ruptura entre o filho idealizado e o filho real. Essa transição causa choques, envolve enfrentamentos e precisa ser encarado com naturalidade e serenidade. Aos poucos os pais vão perdendo o lugar de heróis e benfeitores e tornam-se educadores, fontes de ordens, tarefas e exigências. Essa transformação pode ser encarada com contrariedade pelo filho que, no fundo, gostaria de continuar sendo mimado. 

Por já terem vivido a adolescência, os pais conhecem os riscos envolvidos nesta travessia e desejam que os filhosouçam, mas eles não fazem e por isso mesmo os pais devem sintonizar na educação. A atenção nessa fase será diferente das fases anteriores, que podia ser mais física, com abraços, beijos e apertões. Agora, o carinho dos pais deve ser demonstrado na atenção e na empatia, mostrando ao filho que você compreende o que está acontecendo naquela fase da vida dele e que você não é indiferente a esse momento, visto que o jovem se sente tão frágil em seu íntimo e tão dependente dos pais que para compensar o seu sentimento de inferioridade desenvolve uma superestimação do seu eu.

Portanto, adolescência não é só rebeldia, divergência ou agressividade como pensa o senso comum. É necessário desconstruir esse pensamento e considerar o lado doloroso e complexo que os adolescentes e os pais passam. O adolescente, em sua maioria, não tem consciência do mal estar subjetivo que se situa e isso explica porque um adolescente, mesmo desesperado, não pede ajuda. Bastaimaginar que esse jovem era criança e agora não é mais, mas também ainda não é considerado um adulto e que ele precisa achar esse lugar no mundo, um lugar para ocupar.

Não só a família ou o ambiente clínico, mas a sociedade, através da cultura, também deve oferecer uma escuta e um espaço agradável aos jovens e impedir que as redes sociais sejam vistas, por eles, como o único espaço possível, pois isso pode contribuir para a intensificação do desamparo, a fragilização dos laços sociais e torna-los mais vulneráveis. 

Por fim, como saber então se o adolescente concluiu sua travessia? Vários indicadores poderiam ser citados, contudo, a capacidade de reconhecer suas imperfeições e mesmo assim estar à vontade consigo mesmo; de mostrar-se obediente, embora já adulto; e não ter medo de se relevar como criançaem certas circunstancias, são de uma forma mais ampla, alguns indicadores de desfecho saudável. 

Juliana Cavalcante / Psicóloga Clínica / Formação em Psicodiagnóstica / Psicanalista / CRP: 11/10502

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