Por: Por Thaty Rabello — Diretora Criativa e referência nacional em moda com propósito, sustentabilidade aplicada e economia criativa
Empreender sendo mulher no Brasil é abrir portas que nem sempre estão destrancadas. É caminhar por caminhos que não foram feitos para nós. É aprender a existir em espaços onde nossa presença ainda é questionada.

Segundo levantamento do Sebrae (2023), 48% dos CNPJs ativos no país pertencem a mulheres. Ainda assim, apenas 34% delas têm acesso ao crédito formal. O IBGE, na PNAD Contínua de 2023, mostra que 89% das mulheres brasileiras acumulam dupla ou tripla jornada, somando trabalho remunerado, cuidado doméstico e responsabilidade emocional da família. Mesmo diante desse cenário, mulheres recebem, em média, 20% menos que homens na mesma função, segundo o mesmo estudo.
Esses números escancaram a contradição estrutural do país. As mulheres movimentam a economia, lideram iniciativas, constroem soluções e sustentam lares, mas não recebem as mesmas condições para prosperar com equidade. É dentro dessa lógica desigual que o empreendedorismo feminino brasileiro resiste, cresce e se reinventa diariamente.
Existe um discurso que tenta nos homenagear, mas que, na prática, nos aprisiona. Somos chamadas de fortes, guerreiras e incansáveis, como se a exaustão fosse virtude. Essa romantização da sobrecarga feminina é uma violência cultural silenciosa. É o mito da guerreira, uma herança histórica, estrutural e geracional que insiste em repetir que “mulher aguenta”, “mulher dá conta” e “mulher dá um jeito”.
Eu mesma precisei ser forte muitas vezes. Não por vocação, e sim porque não me deram alternativas. A força feminina só deveria ser celebrada quando é escolha, e não quando é exigência social. Mas, no Brasil, não é raro que mulheres construam uma trajetória inteira, alcancem sucesso e, ainda assim, precisem recomeçar. Eu fui uma dessas mulheres. Precisei recomeçar do zero. Fui obrigada a reconstruir tudo o que havia demorado anos para levantar.
Ainda assim, escolhi transformar essa ruptura profunda em expansão. Poderia ter permanecido na zona segura da moda, onde já tinha experiência e reconhecimento. Em vez disso, rompi a bolha que tantas vezes é imposta às mulheres, a bolha do “isso não é para você”, “esse setor é masculino” e “você não vai dar conta”.
Foi assim que me tornei dona de bar no ramo da gastronomia, líder de operações complexas e, posteriormente, empreendedora no setor de energia solar, um espaço historicamente dominado por homens. Essa expansão multissetorial não aconteceu por acaso. Ela foi intencional. Foi um gesto de coragem e uma afirmação clara de que mulheres podem ocupar qualquer lugar que desejarem.
E, depois de atravessar todas essas camadas sociais, existe ainda a mais invisibilizada de todas: a maternidade. Empreender no Brasil já é difícil. Empreender sendo mulher é ainda mais. Empreender sendo mãe é quase um ato de resistência emocional e física.
A maternidade acrescenta turnos que não aparecem em planilha alguma. O turno do cuidado, o turno da carga mental, o turno emocional, o turno da culpa e o turno do improviso diário. Nada disso surge quando alguém diz que somos guerreiras. E não é uma homenagem. É invisibilização. O fato é que o empreendedorismo feminino acontece apesar da sobrecarga, e não por causa dela.
No Nordeste, esse retrato ganha ainda mais profundidade. Aqui, criar é resistir. Inovar é sobrevivência. Empreender é transformar ausência em oportunidade e cultura em potência econômica. Foi assim que renasci, unindo moda autoral, artesanato, upcycling, gastronomia, energia solar, cultura, território e impacto social. Transformei um recomeço em reconstrução multissetorial e, ao longo desse processo, vi outras mulheres se fortalecerem junto comigo.
Aprendi que, quando uma mulher empreende, ela nunca empreende sozinha. Ela carrega sua história, suas raízes, sua comunidade, sua rede e uma força coletiva que sustenta silenciosamente a economia deste país.
Por isso, quando falamos de empreendedorismo feminino, não estamos falando de glamour. Estamos falando de queda, retorno, reconstrução, luta, autonomia e dignidade. Estamos falando de histórias reais que o Brasil precisa enxergar com respeito e profundidade.
O meu recomeço é apenas um entre tantos. Escolho compartilhá-lo não como drama, e sim como reflexão. O empreendedorismo feminino não é exceção. Ele é força vital da economia, da cultura e do futuro do Brasil.
Se existe uma mensagem que este artigo deixa, é esta: o país precisa parar de romantizar o cansaço das mulheres e começar a criar condições reais para que possamos prosperar. Não queremos ser heroínas. Queremos oportunidade, estrutura e equilíbrio.
Porque, quando uma mulher empreende, ela não constrói apenas um negócio. Ela constrói caminhos. Ela constrói possibilidades. Ela constrói futuro. E futuro, no Brasil, tem nome de mulher.












