Por: Fernanda Cassain, médica
Fomos para um casamento há alguns dias, tudo parecia como sempre: música, risos, encontros, reencontros. A turma toda estava lá, amigos desde a faculdade, alguns desde o colégio. Os namoros viraram casamentos, as casas, as viagens, os filhos que cresceram juntos. Mas, naquela noite de celebração, havia um vazio silencioso.
Alguém que sempre esteve em todos os momentos não estava. Ela simplesmente não foi convidada. Sempre tão querida, agradável, admirada, mas não foi convidada. A razão era óbvia: havia se separado do marido recentemente. E, junto com o casamento, perdeu também o direito de estar entre nós.

O que me marcou não foi apenas a ausência, mas a naturalidade com que ela aconteceu. Era como se todos tivessem aceitado que, com a separação, ela já não tinha mais lugar naquele círculo que ajudou a construir.E, no entanto, ela sempre fez parte da nossa história. Ela é parte da história.
Nos grupos de casais, há um mecanismo pouco dito, mas muito real: o pertencimento feminino depende do vínculo conjugal. A amizade é dos homens; as mulheres se somam a ela. São eles que mantêm as relações de origem, que decidem os destinos das viagens, os encontros de fim de semana, o restaurante de sexta à noite. Elas aderem, criam laços, constroem entre si intimidade e cumplicidade. Mas o elo que garante a presença delas é o casamento. Quando esse elo se rompe, todo o restante se rompe junto.
Vamos para as festas infantis. Certa vez, ouvi a justificativa: “era o fim de semana da mãe, por isso as crianças não foram”. Faz sentido? A festa foi organizada, os convites foram enviados, e o pai, mesmo sem levar os filhos, não deixou de comparecer para encontrar com os outros, mesmo a festa sendo de crianças. Participou da comemoração, conviveu com os outros pais, manteve seu espaço. Ela, por outro lado, não recebeu sequer a lembrança de que havia uma celebração. Por que o convite não foi cedido a ela, para que pudesse levar os filhos? Porque, no fundo, a exclusão é dirigida a ela.
Esse mecanismo é cruel porque não é explícito. Ninguém vai dizer “não queremos você aqui”. Mas os gestos falam mais alto. Ela deixa de ser lembrada nos aniversários, não participa mais dos encontros de casais, não é convidada para a viagem anual. A vida social que parecia tão sólida dissolve-se em silêncio.
Tudo isso nos leva a uma constatação incômoda: as mulheres não se divorciam apenas do marido. Elas se divorciam também do grupo, dos amigos, das relações que ajudaram a cultivar. O divórcio delas é sempre mais amplo e mais severo.
Mas há um detalhe ainda mais doloroso, e talvez mais difícil de digerir: as outras mulheres são cúmplices desse processo.
Sim, são. Porque, em muitos casos, quem poderia estender a mão, quem poderia insistir na inclusão, quem poderia dizer “ela também faz parte” prefere se omitir. As amigas de mesa, aquelas com quem dividiu confidências, gravidez, maternidade, risadas e queixas do dia a dia, simplesmente silenciam. Fingem que não viram. Aceitam como “natural” que a ex-esposa desapareça junto com o fim do casamento.
E, ao fazerem isso, tornam-se coniventes com uma exclusão que, no fundo, também as ameaça. Porque, mal sabem, qualquer uma delas pode ser a próxima. Basta que a vida conjugal não siga o roteiro esperado.
Essa falta de solidariedade feminina é um dos aspectos mais cruéis do divórcio social. As mulheres, que poderiam formar uma rede de apoio poderosa, que poderiam questionar os convites seletivos, que poderiam convidar por conta própria, acabam reforçando a mesma lógica que as aprisiona. Talvez por medo de desagradar os maridos, talvez por receio de parecer desleal ao grupo, talvez por não perceberem que estão apenas perpetuando uma injustiça que um dia pode atingi-las.
E é aí que o ciclo se completa: a exclusão não é feita só pelos homens, mas é legitimada pelas mulheres. O silêncio delas dá o aval que falta.
É preciso, portanto, olhar para esse fenômeno com coragem. Porque não se trata apenas de uma história pessoal, de um grupo específico, de um casamento em particular. É um retrato de como ainda funcionam nossas relações sociais.
Enquanto não houver consciência — e, mais que isso, solidariedade ativa — o divórcio continuará sendo, para muitas mulheres, não só o fim de um casamento, mas também o fim de uma vida em comunidade.
E cabe perguntar: quantas amizades ainda vamos deixar morrer no altar da conveniência social? Quantas mulheres ainda vamos deixar desaparecer dos círculos, dos convites, das festas de aniversário, dos encontros de viagem, apenas porque o estado civil mudou?
A verdade é que ninguém deveria ser desconvidado da vida por ter encerrado um casamento.












