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OPINIÃO: Depósito de Ansiedade: o que os grupos de mães no WhatsApp estão fazendo com a Medicina

Por: Fernanda Cassain, médica.

Os grupos de mães no WhatsApp viraram verdadeiros espaços de apoio. São úteis, acolhedores, cheios de trocas valiosas. Mas, junto desse fenômeno positivo, surgiu também algo preocupante: a expectativa de que sempre haverá uma mãe médica disponível para resolver, instantaneamente, qualquer dúvida de saúde.

Fernanda


O caso que me trás aqui aconteceu em um grupo com quase 500 mães. Uma criança estava com náuseas e vômitos; a mãe perguntou qual remédio poderia dar. Outra mãe, médica, respondeu com uma sugestão “de rotina”. A criança piorou, foi ao pronto-socorro e agora a médica está sendo processada. O que é mais fácil: levar na consulta ou perguntar no grupo?

Mas vamos tentar entender o que realmente está acontecendo.

Como médica, sempre tentei ajudar. Mas percebi padrões estranhos. Perguntas simples, que poderiam ser resolvidas com o próprio plano de saúde, surgem repetidamente: “Indicam cardiologista do plano X?”. Será ansiedade, praticidade ou simples hábito de despejar dúvidas ali?
Costumo responder e finalizo com: “Me chama no privado para te orientar melhor”. Quase ninguém chama. Então observo:

— Visualizou e não chamou? Não era tão urgente.

— Nem visualizou? Era ansiedade jogada no grupo e não se deu ao trabalho por esperar uma resposta.

Mas há outra situação perigosíssima: quando a pressa se transformar em imprudência coletiva e o grupo tenta agir como se fosse uma equipe de saúde. Recentemente, em outro grupo de mães, pediram ajuda para um paciente transplantado renal cuja medicação “não estava disponível no SUS”. Havia até sugestão de vaquinha online, porque o valor era alto. Chegou ao ponto do caso ser compartilhado no Instagram. Por acaso, eu conhecia um dos médicos que faz transplantes na minha cidade. Encaminhei o caso. Ele respondeu: “Esse medicamento chega amanhã e a família já está ciente.” Ou seja: mais uma vez, a urgência compartilhada no grupo não corresponde à realidade.

E fica a pergunta: como ficam as mães médicas? Se respondem e algo dá errado, podem ser processadas. Mas e se não respondem? Seremos responsabilizadas por ter lido e não ter ajudado, como no avião em que o médico que não se manifesta pode ser identificado na lista de passageiros e responde por omissão de socorro?

Até onde vai a obrigação moral e legal de quem lê uma mensagem num grupo?

Eu gosto do WhatsApp. Dou meu número para todos os meus pacientes. Vejo vantagens reais. Mas aprendi a me proteger e a proteger o paciente.

Se a pessoa não entende a orientação, digo: “Você precisa ir ao consultório.”
Se é algo mais importante: “Vá ao pronto-socorro agora.”

Os grupos não vão desaparecer. Mas precisamos discutir esse novo “chamado a bordo digital”.

Mas será que esse chamado no WhastsApp é tão urgente assim ou apenas praticidade para quem envia a dúvida que muitas vezes nem está atento para a resposta?

O WhatsApp democratizou a comunicação. Mas não democratizou a Medicina. E enquanto confundirmos uma coisa com a outra, colocaremos os pais, mães, médicos e pacientes em risco.