Direito&Justiça

Núcleo Jurídico da Revista Ceará homenageia advogado Clayton Marinho

Advogado Clayton Marinho, morreu vítima da Covid-19, aos 78 anos. Ele estava internado há algum tempo e teve complicações da doença causada pelo coronavírus.

Representando todo o corpo jurídico da Revista Ceará, o advogado Waldir Xavier, comentou o ocorrido e homenageou Marinho: “Despediu-se daqui o príncipe da tribuna, o orador nato, o advogado vocacionado!”.

Waldir Xavier, ressalta que Marinho, tinha uma característica que lhe era muito peculiar: conhecia cada vírgula que havia nos autos. Isso, somado à retorica firme e densa, transformava sua defesa em algo devastador.

Leia a nota de homenagem:

“Não é difícil morrer nesta vida. Viver é muito mais difícil.” (Vladimir Maiakóvski)

“Clayton Marinho se foi …
Despediu-se daqui o príncipe da tribuna, o orador nato, o advogado vocacionado! “Onde está isso nos autos, doutor Promotor?”, bradava ele da tribuna da defesa, num aparte arrebatador, como sempre, para o constrangimento de uma acusação a tatear o processo sem achar a passagem específica.

Este era o Clayton.

Quando ainda “rato de júri”, acadêmico de Direito, eu costumava varar a noite assistindo os embates acalorados no antigo fórum da Praça da Sé, geralmente na prazerosa companhia do Ernando Uchoa Sobrinho, outro fanático espectador do júri. Víamos ali, naquelas pendengas orais, perorações inesquecíveis; e o Clayton, um de nossos preferidos, tinha uma característica que lhe era muito peculiar: conhecia cada vírgula que havia nos autos. Isso, somado à retorica firme e densa, transformava sua defesa em algo devastador. Era dificílimo enfrentá-lo no júri!
Deus me permitiu revelar a ele estes fatos, e outros tantos, nas conversas sempre muito amistosas que tínhamos pela estreitíssima ligação que construímos, a qual, segundo ele, era uma espécie de herança da sólida amizade que tinha pelo meu amado pai.

Das vezes que pude homenageá-lo, uma me tocou profundamente, foi na oportunidade em que, na OAB do Crato – numa passagem em que fazíamos palestras sobre o tribunal do júri pelo cariri, eu e ele – expressei ao grande Mestre a minha admiração particular e a inspiração que ele traduzira à geração de novos advogados criminalistas. Inesquecível. A singela homenagem lhe tocou tanto que, inusitadamente, ele, ao final de minha fala, levantou-se da primeira fila e emitiu, publicamente, o sinal maçônico de seu grau, revelando uma honraria ímpar; tendo eu retribuído, da tribuna, o mesmo cumprimento da confraria das acácias. Emocionante!

Nesta noite memorável, no exato momento em que eu disse: “Eu estava lá, eu o vi atuar …”, sua cabeça se curvou e pude vê-lo enxugar as lágrimas que, reputo, não eram de saudade, mas de sentimento do dever cumprido, com o reconhecimento de um de seus muitos discípulos.
No frontispício deste pequeno texto – uma pequeníssima homenagem a quem foi grandioso – valho-me da pena poética do príncipe da poesia russa para lhe dizer, Mestre querido, que viver para você não foi difícil, justamente porque fê-lo com intensidade e com amor. Guardarei, na parede da minha memória, aquele vozeirão roco das grandes defesas, o lenço flamejante em sua mão, como na regência de coro que se afinaria à sua tese, e, principalmente, das nossas rodas de samba, com os clássicos tão bem entoados por você, meu caro.

Que Deus o receba, nas paragens celestes, com a alegria que marcou sua existência!